Um ano, um mês e vinte e dois dias
Um ano, um mês e vinte e dois dias.
Eu faço terapia a um ano já. Pra ser mais exata, um ano, um mês e vinte e dois dias. Durante esse tempo todo eu tive boas e más sessões, tive as que passaram rápido e as que demoraram um eternidade, as que ri e às que chorei.
De todas essas sessões existe uma que se sobressai. Foi logo no início, eu não lembro a data ou a roupa que estava vestindo. Mas lembro que estava chovendo. Lembro também que eu estava angustiada. Havia algo que precisava contar mas não queria. Eu não queria reviver algo que a muito tempo tentava enterrar. Mas o irônico é que quanto mais eu cavava a cova, mais angustiada eu ficava. E no fim eu tinha a sensação de que quando terminasse de cavar, aquela se tornaria a minha cova.
Durante uma hora inteira eu fiquei enrolando, enquanto eu tentava trazer o foco pra problemas do cotidiano, uma voz na minha cabeça gritava comigo.
- Fale fale fale fale fale fale fale fale.
E eu dizia
- Eu não consigo, sou fraca, por favor não.
A voz venceu e eu contei.
Quando penso naquela hora, a única coisa que me lembro é da sensação de sufocar. Enquanto me obrigava reviver e falar, o choro deixava a minha língua pesada e apertava a minha garganta. Meu corpo todo se apertou com a angústia que reprimi durante anos. Foi horrível, mas eu contei.
Durante aquele tempo todo ela apenas ficou me olhando, não me interrompeu, apenas me escutou e depois que eu parei de falar foi a vez dela.
Pra ser sincera eu não lembro de nada do que ela me disse. Lembro apenas de duas frases: “ Isso não é culpa sua.” e “ Não deixe isso determinar a sua vida.”.
Eu levo essas duas frases comigo e nos momentos em que preciso eu as repito em minha mente.
As coisas estão melhores. A cada dia que passa fica mais fácil reviver e encarar tudo. Mas eu ainda tenho medo. A idéia de me expor ainda me aterroriza. Meu coração disparou só de pensar em escrever esse texto.
Mas eu o escrevi mesmo assim.
A um ano, um mês e vinte dois dias atrás, isso seria impossível pra mim. Então talvez o medo, o terror e essa cicatriz estejam curados daqui a um ano, um mês e vinte e dois dias.
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